Diego Marrul
Prevenir é melhor do que remediar. Esta máxima do senso comum, uma vez aplicada no cotidiano da vida urbana, seria a solução para diversos problemas, sobretudo o da violência e o do tráfico de drogas. No entanto, a ausência do poder público em comunidades carentes e a desigualdade social, entre tantos outros fatores de conhecimento de todos, estimulam o crescimento dessa violência e seduzem cada vez mais jovens, que entram para o mercado do tráfico atraídos pela lógica do dinheiro fácil.
Esta temática, debatida à exaustão em diversos níveis da sociedade após o lançamento do filme Tropa de Elite, de José Padilha, tem despertado opiniões, muitas vezes, equivocadas. Uma dessas vertentes, verbalizadas por uma parcela da mídia brasileira, dá conta de que o filme trata-se de uma obra reacionária ou até mesmo fascista; questionamento a princípio lançado pelo jornalista Arnaldo Bloch em sua coluna semanal, no jornal O Globo.
Ora, a fita pode até ser tomada por maniqueísta, uma vez que representa uma única visão, ou verdade, do tema em questão (tráfico de drogas e violência), onde o assunto é mostrado sob o prisma do personagem principal e narrador do filme, Capitão Nascimento, membro do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope), interpretado por Wagner Moura.
Porém, há de se fazer uma separação entre o discurso do personagem e o do filme em si, ou do seu diretor e roteirista, que seja. A noção de que o combate à violência deva ser feito com mais violência, utilizando, inclusive, instrumentos de repressão e tortura (como é mostrado no filme), parte do Capitão Nascimento, como figura representante de uma determinada categoria da nossa sociedade, e ganha vida em suas palavras. Mas isso não significa que o idealizador da obra tenha o mesmo pensamento.
A grande questão é que as atitudes do personagem principal acabam por dar voz a um discurso "entalado" na garganta de grande parte da classe média/média-alta carioca, de que "tem de entrar no morro pra matar mesmo!". O que deve ser questionado, portanto, é se nós - cidadãos sufocados pela violência urbana - é que não somos reacionários, ou um pouco fascistas, ao contrário do filme. Quantos de nós não temos um pouco de Capitão Nascimento?
Ao mesmo tempo, Padilha aproveita para dar uma "porrada" nessa mesma classe que vai ao delírio com as atitudes do Capitão Nascimento, que vê no filme um amplificador para o discurso de que "bandido bom é bandido morto". O diretor faz questão de mostrar a parcela de culpa desta classe, enquanto maior consumidora de drogas, na questão do tráfico e do aliciamento de adolescentes para esta prática criminosa: mais um bom exemplo de que Padilha não está comprometido com um único discurso e nem corrobora com o pensamento de grande parte da elite brasileira; a mesma que "manda" matar o traficante e é responsável pelo financiamento do tráfico.
Como disse Wagner Moura em artigo publicado em O Globo, se o filme fosse exibido na Europa, em países como a Suécia, por exemplo, a reação da platéia seria completamente diferente. Os aplausos e os gritos de "caveira" dariam lugar à incredulidade e ao espanto durante as cenas de violência protagonizadas pelo capitão do Bope, torturador, uma pessoa totalmente alheia às noções primárias de direitos humanos. Mas nós, moradores do Rio de Janeiro, de classe média, cansados da eterna guerra entre policiais e traficantes, temos em Capitão Nascimento um herói, uma fantasia excitante do nosso lado mais obscuro.
Ele, treinado para matar e sobreviver nesta mesma guerra que nos assola, representa uma força de elite da polícia, criada para ser o paleativo para a nossa dor de cabeça. E o sistema que não previne é o mesmo que cria o Bope - um remédio - ministrado em doses exageradas de violência e insanidade. Nesse caso, um medicamento de tarja preta.
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